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Sociedade - Automóvel no banco dos reús


Daniel Camargos - Estado de Minas


Acadêmica atribui culpa das relações sociais deterioradas ao automóvel. Tema foi tese de mestrado e encontra eco nas canções populares e vias de uma metrópole

Arte EM

Tatiana Schor tinha concluído o curso de economia na Universidade de São Paulo (USP) e buscava um tema para trabalhar no mestrado quando se deparou com a notícia de que 90% dos compradores de veículos com características off-road não usavam o veículo para o fim a que se destina. A notícia que parece comum para quem se atem à estética e não se importa com a essência assustou Tatiana que decidiu estudar o assunto. Publicou sua tese, titulada: “O automóvel e a cidade de São Paulo: a territorialização da modernização (e de seu colapso)”, depois concluiu doutorado em Ciência Ambiental e hoje leciona no departamento de geografia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Os temos ecológicos sempre lhe foram caros e foi se dando conta que por mais que se discutam alternativas de energia limpa, novos combustíveis e inovações de engenharia de trânsito, o carro será sempre um mal e um dia terá que deixar de existir.

O estudo de Tatiana aborda várias vertentes que envolvem o automóvel. A primeira diz respeito à primazia da máquina em relação ao cidadão no momento de planejar uma cidade. “Trabalhei a idéia de como o sistema automobilístico rasga e arrebenta a cidade, constróis grandes avenidas, túneis, viadutos e faz com que as pessoas percam o direito de uso da rua, que as crianças percam a chance de brincarem nas vias e andarem de bicicleta”, entende. Outro aspecto é o cultural, pois segundo a estudiosa, o carro é um bem que é consumido em público e reveste o proprietário de status: “As pessoas sabem a marca do automóvel do amigo, mas não sabem a marca da geladeira”.

No artigo que resume seu estudo, chamado de O automóvel e o desgaste social, Tatiana explica que vivemos em uma sociedade na qual as pessoas reconhecem-se como pares e ilustra com a letra da clássica canção de Roberto Carlos Nas curvas da estrada de Santos: “Se você pretende saber quem eu sou, eu posso lhe dizer: entre no meu carro, e na estrada de Santos você vai me conhecer...”. As canções populares, inclusive, foram tema de pesquisa de Tatiana, que percebeu a presença da valorização do carro em estilos variados de diversos compositores.

Outra forma de variar o olhar foi entrevistar prostitutas e moradores de rua. Nas conversas, Tatiana percebeu que as garotas de programa, que fazem ponto na rua, tem idéia de que o automóvel é um bem distante que não faz parte dos sonhos das moças. Já os moradores de rua não sabem dizer como seria a casa dos sonhos, mas quando questionados qual o carro ideal não encontram dúvidas em citar marcas e modelos.

A valorização exagerada do produto, casada com as intervenções urbanas, ajuda a perpetuar, na opinião de Tatiana, um paradoxo. “É triste porque as cidades não param para olhar as opções possíveis. É como se fosse um monstro, que vai se enchendo, enchendo e um dia explode”, acredita. Sobre o fim do automóvel, ela considera uma utopia, mas “que vai nos pegar, vai”.

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